A Revolução Francesa foi o divisor de águas que encerrou a Idade Moderna e inaugurou o mundo contemporâneo. Este movimento complexo derrubou o absolutismo monárquico e espalhou as bases da democracia liberal pelo planeta.
Compreender suas causas e suas fases é o primeiro passo para garantir excelente pontuação nos vestibulares e demais provas. Dividida entre a revolta popular e a ascensão burguesa, a França rompeu com séculos de privilégios feudais.
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A transição da monarquia ao radicalismo jacobino e, por fim, ao império napoleônico transformou toda a Europa ocidental. Neste guia detalhado, analisamos cada marco histórico e trazemos exercícios gabaritados para consolidar seu aprendizado.
Saiba mais acompanhando o artigo na íntegra ou pelo índice, se preferir:
- O que foi a Revolução Francesa e por que ela inaugura a Idade Contemporânea?
- As causas estruturais da Revolução: a profunda crise do Antigo Regime
- O Iluminismo como combustível ideológico da revolta
- A faísca da Revolução: a convocação dos Estados Gerais e o ano de 1789
- Primeira Fase: A Assembleia Nacional Constituinte e a Monarquia Constitucional (1789–1792)
- Segunda Fase: A Convenção Nacional e o Período do Terror Jacobino (1792–1795)
- Terceira Fase: O Diretório e a ascensão de Napoleão Bonaparte (1795–1799)
- Os principais legados e impactos globais da Revolução
- Exercícios resolvidos sobre a Revolução Francesa (Enem, PAS e vestibulares)
- Perguntas frequentes sobre a Revolução Francesa

O que foi a Revolução Francesa e por que ela inaugura a Idade Contemporânea?
A Revolução Francesa, ocorrida entre 1789 e 1799, foi um ciclo revolucionário de proporções globais que derrubou o poder absoluto do rei Luís XVI e extinguiu os privilégios da nobreza e do clero na França.
Esse movimento não se limitou a reformar o sistema político, ele destruiu as bases do feudalismo e abriu espaço para a consolidação do sistema capitalista e da ordem burguesa na Europa Ocidental.
Historiadores utilizam a Revolução Francesa como o marco inicial da Idade Contemporânea devido ao seu caráter universal.
Os ideais sintetizados no lema “Liberté, Égalité, Fraternité“ (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) ultrapassaram as fronteiras do território francês, servindo de inspiração para movimentos de independência nas Américas, revoltas liberais na Europa do século XIX e a formulação dos Direitos Humanos modernos.
O conflito durou dez anos e passou por transformações profundas. Iniciado sob o controle da alta burguesia moderada, o movimento radicalizou-se com a participação das massas populares urbanas e camponesas, experimentou o autoritarismo no período jacobino e, finalmente, estabilizou-se em uma república conservadora que culminou na derrubada de Napoleão Bonaparte.
Estudar essa década é fundamental para compreender a organização das instituições políticas que regem o mundo até os dias de hoje.
As causas estruturais da Revolução: a profunda crise do Antigo Regime
Para entender a eclosão da revolta em 1789, é necessário analisar o funcionamento da sociedade francesa no século XVIII, estruturada sob o molde do Antigo Regime (Ancien Régime).
O país era governado por uma monarquia absolutista de direito divino e apresentava uma divisão social rígida, injusta e altamente desigual, organizada em três estamentos conhecidos como “Estados”.
A divisão social em Três Estados
A população francesa, estimada em cerca de 26 milhões de habitantes na época, estava estratificada da seguinte maneira:
- Primeiro Estado (Clero): Composto por aproximadamente 120 mil pessoas (alto e baixo clero). Controlava cerca de 10% das terras aráveis do país, não pagava impostos ao Estado e ainda recebia o dízimo cobrado de todos os fiéis produtores rurais;
- Segundo Estado (Nobreza): Constituído por cerca de 350 mil nobres (nobreza de corte, de toga e provincial). Detinha cerca de 20% das terras, monopolizava os cargos mais altos da administração pública, do poder judiciário e do exército, e era totalmente isenta do pagamento de tributos;
- Terceiro Estado (Povo): Agrupava cerca de 97% da população (mais de 24 milhões de pessoas). Esse grupo era extremamente heterogêneo, composto por:
- Alta burguesia: Grandes banqueiros, industriais e comerciantes que detinham o poder econômico, mas nenhum poder político;
- Média e baixa burguesia: Profissionais liberais, como advogados, médicos, intelectuais e pequenos comerciantes;
- Sans-culottes: Trabalhadores urbanos artesãos, operários e desempregados que viviam na miséria e recebiam esse nome por não usarem as calças curtas e elegantes (culottes) da nobreza;
- Camponeses: A grande maioria da população, que ainda vivia sob obrigações feudais pesadíssimas, trabalhando na terra de senhores nobres e entregando grande parte de sua produção em impostos.
O Peso dos Impostos
O Terceiro Estado sustentava financeiramente todo o reino francês. Enquanto o clero e a nobreza usufruíam de luxos na Corte de Versalhes, o povo pagava taxas abusivas sobre a terra, sobre o sal (a temida gabelle), sobre o consumo de alimentos básicos e prestava trabalho gratuito nas estradas feudais (corvée).
[Primeiro Estado: Clero] (Isento de impostos / Privilegiado)
[Segundo Estado: Nobreza] (Isento de impostos / Privilegiado)
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│ Sustentados pelos tributos de:
│
[Terceiro Estado: Burguesia, Sans-culottes e Camponeses] (Sem poder político / Carregava o peso fiscal)
A falência financeira e as secas agrícolas
A situação social, que já era crítica, tornou-se insustentável na década de 1780. A França envolveu-se em guerras custosas no exterior, como a Guerra dos Sete Anos (1756–1763) contra a Inglaterra e a Guerra de Independência dos Estados Unidos (1775–1783).
O apoio financeiro e militar enviado aos colonos americanos drenou os cofres franceses, deixando o Estado à beira da falência técnica. Para piorar o cenário, entre 1787 e 1788, a França enfrentou terríveis problemas climáticos, incluindo secas rigorosas e invernos extremamente severos.
As colheitas de trigo foram devastadas, o que provocou uma escassez generalizada de alimentos e fez o preço do pão, alimento básico das famílias pobres, disparar nas cidades. A fome assolou o país, gerando saques a armazéns, revoltas rurais e um clima generalizado de desespero e insatisfação popular.
O Iluminismo como combustível ideológico da revolta
A crise material da França encontrou no Iluminismo a justificativa racional necessária para a contestação do poder real.
O movimento intelectual iluminista do século XVIII atacava frontalmente os pilares do Antigo Regime: o poder absoluto do monarca, o direito divino dos reis, a Igreja Católica e os privilégios econômicos da aristocracia.
Os pensadores iluministas propuseram novos modelos de organização social e jurídica que influenciaram diretamente os líderes revolucionários franceses:
- John Locke e a soberania: Defensor dos direitos naturais do homem (vida, liberdade e propriedade). Ele afirmava que os governantes governam pelo consentimento dos cidadãos e que o povo tem o direito de rebelião caso esse contrato social seja quebrado;
- Voltaire e a liberdade: Famoso por sua defesa intransigente da liberdade de expressão, da tolerância religiosa e por sua crítica mordaz ao clero católico e ao dogmatismo medieval;
- Montesquieu e a tripartição dos poderes: Autor que propôs a divisão do poder do Estado em três esferas independentes e harmônicas, Executivo, Legislativo e Judiciário, evitando a centralização tirânica de um monarca absoluto;
- Jean-Jacques Rousseau e a vontade geral: Advogava pela democracia direta e pela igualdade social básica, argumentando que a verdadeira soberania reside no povo (soberania popular) e não na figura sagrada do rei.
As obras desses filósofos circulavam ativamente em clubes políticos, cafés de Paris e folhetos informativos impressos pela burguesia intelectual.
Diante da fome e da opressão, o povo francês passou a enxergar as teorias iluministas não apenas como discussões acadêmicas, mas como guias de ação política imediata para exigir igualdade jurídica e representatividade.
A faísca da Revolução: a convocação dos Estados Gerais e o ano de 1789
Diante do colapso financeiro, os ministros da fazenda de Luís XVI sugeriram uma reforma tributária inevitável: fazer com que a nobreza e o clero passassem a pagar impostos.
A aristocracia reagiu energicamente contra a proposta (episódio conhecido como a Revolta dos Nobres) e exigiu que o rei convocasse a Assembleia dos Estados Gerais para decidir sobre o assunto.
A Assembleia dos Estados Gerais era um órgão consultivo que não se reunia desde 1614. Ela congregava representantes eleitos dos três estamentos da sociedade. A reunião teve início em maio de 1789 no Palácio de Versalhes, mas um grave impasse político travou os trabalhos logo na sessão de abertura.
O conflito sobre o sistema de votação
Tradicionalmente, cada um dos três Estados tinha direito a apenas um voto global na Assembleia. Dessa forma, o clero (Primeiro Estado) e a nobreza (Segundo Estado) aliavam-se sistematicamente, alcançando sempre a vitória de 2 a 1 contra o Terceiro Estado, mesmo este representando a esmagadora maioria da nação.
A burguesia exigiu que a contagem de votos fosse alterada para o voto individual (por cabeça), já que o Terceiro Estado contava com mais deputados do que as outras duas ordens juntas. Diante da recusa do rei e da nobreza em aceitar a mudança, os representantes do povo retiraram-se da sessão dos Estados Gerais de forma rebelde.
O Juramento do Jogo de Pela e a queda da Bastilha
Em 17 de junho de 1789, os deputados do Terceiro Estado declararam-se reunidos em uma Assembleia Nacional Constituinte.
Três dias depois, ao encontrarem o local de reuniões fechado por ordem do rei, eles invadiram uma sala de esportes anexa do palácio e realizaram o histórico Juramento do Jogo de Pela (Serment du Jeu de Paume), jurando não se dispersarem até que a França tivesse uma Constituição escrita.
Enquanto os políticos debatiam em Versalhes, a tensão popular nas ruas de Paris explodiu. Circularam boatos de que o rei estava reunindo tropas militares ao redor da capital para reprimir os deputados constituintes. Em resposta, a população urbana organizou-se em milícias populares.
No dia 14 de julho de 1789, a multidão parisiense atacou e tomou o controle da Bastilha, uma antiga fortaleza medieval utilizada como prisão política pelo absolutismo. A Bastilha guardava os depósitos de pólvora da cidade e era o símbolo máximo da opressão real.
A queda da fortaleza marcou a entrada definitiva do povo comum no processo revolucionário e tornou-se a data nacional da França.
No campo, o movimento espalhou-se através do Grande Medo (Grande Peur), período em que camponeses invadiram castelos aristocráticos, queimaram registros de dívidas feudais e executaram proprietários rurais.
Primeira Fase: A Assembleia Nacional Constituinte e a Monarquia Constitucional (1789–1792)
Após a queda da Bastilha, a Assembleia Constituinte tomou medidas radicais de impacto profundo para desmantelar as estruturas feudais do reino francês.
A burguesia liderou as reformas legislativas, mas foi impulsionada pela contínua pressão dos camponeses e trabalhadores urbanos.
O fim dos privilégios e a Declaração de Direitos
Na noite de 4 de agosto de 1789, a Assembleia Nacional decretou a abolição total dos privilégios feudais. Acabaram-se os impostos cobrados exclusivamente sobre o povo, as isenções fiscais da nobreza e do clero, e os tribunais senhoriais privados. Todos os franceses tornaram-se juridicamente iguais perante as leis do Estado.
Pouco depois, em 26 de agosto de 1789, foi promulgada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Inspirada diretamente na Declaração de Independência dos EUA e nos ideais iluministas, o documento estabelecia:
- A igualdade natural de todos os seres humanos perante a lei;
- A liberdade individual, de expressão, de opinião e de religião;
- O direito inalienável à propriedade privada e à resistência contra governos tiranos;
- A premissa de que a soberania política emana do povo (a nação), não do rei de direito divino.
A exclusão feminina
Apesar do caráter universalista da Declaração, as mulheres foram excluídas dos direitos políticos básicos. Como resposta, a escritora Olympe de Gouges redigiu em 1791 a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, exigindo igualdade de gênero.
Ela não foi ouvida pela liderança revolucionária masculina e acabou guilhotinada anos depois, durante a fase do Terror.
A Constituição Civil do Clero e a tentativa de fuga do Rei
Em 1790, a Assembleia aprovou a Constituição Civil do Clero. Os bens da Igreja Católica foram confiscados pelo Estado para lastrear a emissão de uma nova moeda de papel (os assignats).
Os padres e bispos tornaram-se funcionários públicos pagos pelo governo civil e foram obrigados a jurar fidelidade à nova ordem revolucionária. Aqueles que recusaram a submeter-se à lei foram classificados como clero refratário e passaram a ser perseguidos como contra-revolucionários.
Sentindo a perda de controle sobre o país, o rei Luís XVI planejou uma fuga secreta de Paris com a rainha Maria Antonieta em direção à fronteira com a Áustria, onde esperava reunir exércitos estrangeiros para restaurar o absolutismo na França.
Contudo, em junho de 1791, a família real foi identificada na cidade de Varennes, capturada e trazida de volta a Paris sob custódia militar, perdendo todo o prestígio e a confiança da população.
A Constituição de 1791
Em setembro de 1791, a França promulgou sua primeira Constituição escrita, que estabelecia:
- A Monarquia Constitucional como forma de governo (o rei continuava chefe do executivo, mas suas ações eram rigidamente limitadas pela Assembleia Legislativa);
- A divisão do Estado em Três Poderes independentes;
- O voto censitário, ou seja, apenas cidadãos masculinos ricos que pagavam um valor mínimo de impostos tinham direito ao voto, privando as massas mais pobres (sans-culottes) de representação.
Segunda Fase: A Convenção Nacional e o Período do Terror Jacobino (1792–1795)
A tentativa de conciliação moderada entre a burguesia e a monarquia desmoronou rapidamente.
As monarquias absolutistas vizinhas (como a Áustria e a Prússia) sentiram-se ameaçadas pela possibilidade de as ideias revolucionárias francesas atravessarem as fronteiras e derrubarem seus próprios tronos. Em abril de 1792, a Assembleia declarou guerra à Áustria.
As sucessivas derrotas militares francesas iniciais provocaram pânico na população de Paris. O povo acusou o rei e generais monarquistas de estarem conspirando em segredo com o inimigo estrangeiro.
Em 10 de agosto de 1792, as massas populares urbanas, lideradas pelos radicais jacobinos, invadiram o Palácio das Tulherias e prenderam formalmente o rei. A monarquia estava extinta. Foi convocada uma nova assembleia constituinte, batizada de Convenção Nacional.
| O ESPECTRO POLÍTICO DA CONVENÇÃO | ||
| [ ESQUERDA: JACOBINOS ] | [ CENTRO: PLANÍCIE ] | [ DIREITA: GIRONDINOS ] |
| Radicais, montanhistas. | Moderados. | Alta burguesia, conservadores. |
| Apoio dos sans-culottes. | Seguiam a força maior. | Defendiam voto censitário. |
A divisão política da Convenção
Dentro da Convenção, os deputados organizaram-se em três grupos políticos principais que deram origem aos conceitos de esquerda, centro e direita na política ocidental:
- Girondinos (Direita): Representavam a alta burguesia comercial e financeira. Defendiam a manutenção das conquistas liberais moderadas, opunham-se à participação política das massas e queriam conter a radicalização popular. Defendiam a descentralização federalista do país;
- Jacobinos / Montanheses (Esquerda): Representavam a pequena e média burguesia. Sentavam-se nos bancos mais altos da assembleia (daí o nome Montanha). Eram radicais, exigiam medidas sociais drásticas contra a crise, defendiam o voto universal masculino e contavam com o apoio combativo das milícias de sans-culottes. Seus principais líderes foram Maximilien Robespierre, Georges Danton, Louis Antoine de Saint-Just e Jean-Paul Marat;
- Planície ou Pântano (Centro): O grupo mais numeroso, composto por deputados moderados que oscilavam de posição de acordo com as circunstâncias e de quem estivesse controlando o poder no momento.
A execução de Luís XVI e a ascensão jacobina
Em setembro de 1792, a República foi oficialmente proclamada. Luís XVI foi levado a julgamento pela Convenção sob a acusação de alta traição contra a pátria.
Apesar do esforço dos girondinos para salvar a vida do monarca, os jacobinos convenceram a maioria de que “o rei precisava morrer para que a República pudesse viver”.
Em 21 de janeiro de 1793, Luís XVI foi decapitado na guilhotina em Paris. A rainha Maria Antonieta foi executada meses depois. A execução do rei chocou a Europa e gerou a formação de uma coalizão militar de vários países contra a França revolucionária.
Ao mesmo tempo, explodiram revoltas internas camponesas de caráter conservador e católico, como a Rebelião da Vendeia. Diante da ameaça externa de invasão e do caos interno, os jacobinos realizaram um golpe político dentro da Convenção em junho de 1793, prendendo líderes girondinos e assumindo o controle total do Estado.
O Terror de Robespierre (1793–1794)
Liderados por Maximilien Robespierre, os jacobinos instauraram um regime de exceção centralizado. O poder executivo foi transferido para o Comitê de Salvação Pública (Comité de Salut Public), que passou a governar com plenos poderes para salvar o país da destruição.
O período jacobino foi marcado por uma dualidade extraordinária: medidas sociais altamente progressistas combinadas com uma violência estatal brutal. As principais reformas sociais promovidas pelos jacobinos foram:
- A promulgação da Constituição do Ano I (1793), que estabelecia o voto universal masculino;
- A abolição imediata e definitiva da escravidão nas colônias francesas (como o Haiti);
- A aprovação da Lei do Máximo, que tabelava os preços máximos de alimentos básicos e produtos de primeira necessidade para combater a fome das cidades;
- A criação do sistema de ensino público, laico e gratuito para todos os cidadãos;
- A instituição do divórcio e o confisco e redistribuição de terras de nobres emigrados aos camponeses pobres.
Por outro lado, o governo jacobino aprovou a Lei dos Suspeitos, iniciando o período conhecido como o Terror (La Terreur). Qualquer pessoa suspeita de se opor às decisões jacobinas, criticar o governo ou sabotar a economia era levada a julgamentos sumários no Tribunal Revolucionário.
Estima-se que mais de 17 mil pessoas tenham sido oficialmente guilhotinadas durante o Terror, incluindo líderes moderados da própria revolução que tentaram acalmar o regime (como o próprio revolucionário Georges Danton) e a cientista política pioneira Olympe de Gouges.

Terceira Fase: O Diretório e a ascensão de Napoleão Bonaparte (1795–1799)
O banho de sangue provocado pelo Terror desgastou a base de apoio dos jacobinos. A inflação continuava alta e a população urbana cansou-se do clima constante de paranoia e execuções diárias na guilhotina. Isolado politicamente, Robespierre perdeu o controle sobre a Convenção.
A Reação Termidoriana (1794)
Em 27 de julho de 1794 (o dia 9 de Termidor pelo calendário revolucionário francês), a burguesia moderada aliada à Planície realizou um golpe de Estado parlamentar na Convenção.
Robespierre e seus principais aliados foram destituídos de seus cargos, presos e guilhotinados no dia seguinte sem julgamento prévio. Esse acontecimento, conhecido como a Reação Termidoriana, marcou o fim da fase radical jacobina e o retorno dos girondinos ao poder.
A nova administração burguesa revogou imediatamente todas as leis sociais populares jacobinas.
A Lei do Máximo foi cancelada (fazendo com que os preços de alimentos voltasse a subir rapidamente), o voto universal masculino foi extinto e o sufrágio censitário (baseado na renda) foi restaurado na nova Constituição aprovada em 1795.
O funcionamento do Diretório (1795–1799)
Para evitar que o poder ficasse centralizado nas mãos de um único ditador como Robespierre, a nova Constituição instituiu o Diretório como o órgão do Poder Executivo, composto por cinco “Diretores” eleitos pelos deputados do Legislativo.
O período do Diretório foi marcado por extrema instabilidade social, crise econômica aguda e corrupção governamental generalizada. A burguesia rica no poder sofria ataques de duas frentes opositoras ativas:
- Pela esquerda: Ocorreram revoltas populares inspiradas por antigos jacobinos. A mais famosa delas foi a Conjura dos Iguais (1796), liderada por Graco Babeuf, que defendia a abolição da propriedade privada e a instauração de uma sociedade comunista igualitária básica. O movimento foi violentamente reprimido pelo Diretório;
- Pela direita: Os monarquistas (defensores da restauração da dinastia Bourbon ao trono) realizaram constantes tentativas de golpes de Estado armados nas ruas de Paris para restabelecer a realeza francesa.
O Golpe do 18 de Brumário (1799)
Sem apoio popular, desacreditado por escândalos e ameaçado por novas revoltas contrarrevolucionárias, o Diretório percebeu que a única instituição capaz de manter a ordem social, proteger a propriedade privada e salvaguardar as conquistas econômicas da burguesia era o exército nacional.
A figura mais popular e respeitada das forças armadas era o jovem general Napoleão Bonaparte, que havia acumulado vitórias militares brilhantes contra as coligações absolutistas no exterior (em campanhas famosas na Itália e no Egito).
Em 9 de novembro de 1799 (o dia 18 de Brumário no calendário revolucionário), apoiado por políticos liberais e banqueiros ricos, Napoleão desferiu um golpe militar, dissolveu o Diretório e estabeleceu o sistema do Consulado, assumindo o cargo de Primeiro Cônsul da República Francesa.
O golpe encerrou oficialmente o ciclo revolucionário de dez anos e iniciou o Período Napoleônico na Europa.
Os principais legados e impactos globais da Revolução
Apesar do seu encerramento com um governo militar centralizado em 1799, as transformações provocadas pela Revolução Francesa deixaram marcas eternas que estruturaram o desenho social do mundo contemporâneo.
Os legados mais importantes da Revolução Francesa são:
- A separação entre Estado e Igreja: A secularização do poder civil consolidou a ideia do Estado Laico moderno, onde a fé religiosa pertence ao âmbito privado dos indivíduos e as leis estatais aplicam-se de forma neutra;
- A Consolidação dos Direitos Humanos: Os conceitos de liberdade pessoal, igualdade civil de todos os seres humanos perante a lei, liberdade de expressão e presunção de inocência no poder judiciário nasceram com o documento de 1789;
- A consolidação do Capitalismo: A derrubada dos privilégios da nobreza feudal liberou as forças produtivas da burguesia, unificando os impostos internos nacionais, abolindo o trabalho servil e garantindo a proteção jurídica à propriedade privada;
- O surgimento do espectro direita-esquerda: A disposição física dos deputados na Convenção Nacional de 1792 legou ao mundo a terminologia atual de partidos e visões políticas (Esquerda associada ao progresso social e reforma popular; Direita associada ao conservadorismo e proteção das instituições liberais tradicionais);
- Adoção do Sistema Métrico Decimal: Para unificar os pesos e medidas caóticos do feudalismo, a revolução introduziu o metro, o litro e o quilograma em 1795, simplificando as transações comerciais mundiais;
- Incentivo às independências americanas: A vitória da revolução francesa e a posterior ocupação napoleônica da Espanha e Portugal enfraqueceram as metrópoles europeias, servindo de faísca importante para as revoluções de independência das colônias espanholas nas Américas e para a transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808;
- A Revolução Haitiana: A radicalização de 1793, ao abolir a escravidão nas colônias, serviu de faísca definitiva para a revolta de escravizados na colônia açucareira de Saint-Domingue, culminando na fundação do Haiti em 1804, a única república negra livre das Américas originada de uma revolta direta de cativos.
Exercícios resolvidos sobre a Revolução Francesa (Enem, PAS e vestibulares)
Treine seus conhecimentos históricos com questões clássicas adaptadas de grandes exames nacionais. Confira ao final de cada questão as explicações pedagógicas sobre a alternativa correta e o porquê de cada opção incorreta estar errada.
Questão 01 (Enem)
“A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão teria grande repercussão no mundo inteiro. Mas o documento não era tão universal quanto afirmava. Na prática, o texto constitucional excluía as mulheres, os escravizados das colônias e os cidadãos passivos (não possuidores de propriedades).”
Com base no conhecimento histórico sobre a primeira fase da Revolução Francesa, o texto citado aponta que o limite da universalidade jurídica da Declaração de 1789 residia na:
- (A) consolidação de um modelo político que atendia prioritariamente aos interesses da aristocracia monárquica feudal.
- (B) contradição entre os discursos iluministas de igualdade civil e a manutenção de privilégios econômicos e exclusões políticas pela burguesia.
- (C) oposição direta dos camponeses pobres às ideias de igualdade de direitos e de representatividade democrática das cidades.
- (D) tentativa dos jacobinos radicais de impedir o voto das massas populares que apoiavam os girondinos conservadores.
- (E) submissão completa dos revolucionários franceses às exigências econômicas da coroa absolutista britânica.
Gabarito comentado da questão 01:
- Alternativa correta: (B)
- Justificativa: O grande limite e a contradição central da primeira fase da Revolução Francesa (1789–1792), liderada pela burguesia moderada, residia na distância entre a teoria idealizada do Iluminismo (igualdade de todos) e a prática política real de exclusão. A aprovação da Constituição de 1791 manteve o voto censitário (apenas ricos votavam) e recusou-se a estender a igualdade jurídica às mulheres ou abolir a escravidão nas plantações das colônias caribenhas francesas, garantindo que o controle do poder continuasse centralizado nas mãos da elite econômica burguesa.
- Por que as outras alternativas estão incorretas?
- (A) está incorreta porque a Declaração de Direitos atacou e aboliu explicitamente os privilégios da aristocracia feudal, não atendendo a este grupo;
- (C) está incorreta porque os camponeses queriam e exigiam direitos de representação, nunca se opuseram à igualdade;
- (D) está incorreta porque foram os jacobinos que posteriormente lutaram pela inclusão do voto universal e das massas populares, em oposição aos girondinos;
- (E) está incorreta porque a Grã-Bretanha era a principal inimiga militar e econômica da França revolucionária, não havendo submissão.
Questão 02 (PAS/UnB)
“O calendário republicano francês foi instituído pela Convenção Nacional em 1793, durante a fase jacobina. O ano I começava em 22 de setembro de 1792, data da proclamação da República. Os nomes dos meses foram alterados para fazer referência a elementos da natureza e da agricultura (Brumário, Termidor, Germinal, etc.).”
A instituição do novo calendário revolucionário pela Convenção Jacobina tinha como principal objetivo político-cultural:
- (A) aproximar a cultura camponesa das diretrizes religiosas católicas tradicionais ditadas pelo Vaticano.
- (B) enfraquecer o comércio exterior francês, isolando economicamente a nação das rotas mercantis europeias.
- (C) demonstrar a submissão dos líderes jacobinos às decisões tomadas pelo exército de Napoleão Bonaparte.
- (D) romper simbolicamente com a tradição histórica e o poder temporal exercido pela Igreja Católica e pela antiga Monarquia.
- (E) garantir que apenas os proprietários de terras agrícolas tivessem o direito de voto no novo parlamento.
Gabarito comentado da questão 02:
- Alternativa correta: (D)
- Justificativa: O novo calendário revolucionário foi uma medida emblemática do projeto de descristianização e de ruptura histórica promovido pela fase jacobina radical (Convenção). Ao zerar o tempo histórico tradicional com a proclamação da República e alterar a divisão semanal para dez dias (eliminando o domingo cristão), os revolucionários buscavam enfraquecer a forte influência religiosa católica de controle do cotidiano do povo e simbolizar o nascimento de uma nova era baseada na razão laica e na natureza, sem as marcas do absolutismo monárquico medieval.
- Por que as outras alternativas estão incorretas?
- (A) está incorreta porque o objetivo era exatamente afastar a sociedade do catolicismo tradicional, não aproximar;
- (B) está incorreta porque o calendário não tinha como objetivo isolar comercialmente a França, embora tenha causado estranheza internacional;
- (C) está incorreta porque em 1793 Napoleão Bonaparte ainda era apenas um oficial de artilharia, longe de ter o controle do país ou do exército;
- (E) está incorreta porque a Convenção Jacobina defendeu e instituiu o voto universal masculino, eliminando a restrição de propriedade para votar.
Questão 03 (Enem adaptada)
“O Terror jacobino consolidou-se a partir de junho de 1793. Seu principal líder, Maximilien Robespierre, argumentava que ‘o terror nada mais é do que a justiça rápida, severa e inflexível, é, portanto, uma emanação da virtude’.”
A análise do trecho citado e das ações do Comitê de Salvação Pública entre 1793 e 1794 revela que a violência de Estado no período do Terror foi utilizada estrategicamente para:
- (A) negociar pacificamente uma transição de poder monárquico com as forças absolutistas da Europa.
- (B) forçar a população rural a aceitar o retorno do regime feudal e do pagamento do dízimo à Igreja.
- (C) eliminar inimigos políticos internos e proteger a jovem República de invasões estrangeiras em momentos de crise extrema.
- (D) centralizar o poder de comando nos antigos generais e ministros de confiança do rei executado Luís XVI.
- (E) abolir os tribunais estatais civis em favor de conselhos militares liderados diretamente pela alta burguesia comercial.
Gabarito comentado da questão 03:
- Alternativa correta: (C)
- Justificativa: O Terror Jacobino foi instituído sob o argumento de “defesa nacional”. Diante das invasões militares promovidas por monarquias estrangeiras coalizadas (Inglaterra, Áustria, Prússia) e das revoltas camponesas contrarrevolucionárias (como na Vendeia), os jacobinos usaram a repressão violenta, execuções sumárias e prisões em massa como ferramentas extremas de coerção do Estado. O objetivo era paralisar os opositores internos através do medo coletivo e impor a centralização executiva necessária para coordenar os exércitos de cidadãos comuns na defesa territorial do país.
- Por que as outras alternativas estão incorretas?
- (A) está incorreta porque os jacobinos não queriam negociar pacificamente com absolutistas, mas sim derrotá-los militarmente;
- (B) está incorreta porque os jacobinos combateram ferozmente o feudalismo e a Igreja Católica refratária;
- (D) está incorreta porque os antigos comandantes realistas e monarquistas associados a Luís XVI foram demitidos e muitos guilhotinados pelo comitê;
- (E) está incorreta porque o período foi comandado por políticos jacobinos radicais aliados aos sans-culottes, e não pela alta burguesia (que estava sob perseguição e acuada).
Questão 04 (Vestibular)
“A instabilidade política e econômica do período do Diretório (1795–1799) abriu caminho para a ascensão de um poder forte e centralizado sob a liderança do general Napoleão Bonaparte no Golpe de 18 de Brumário.”
O apoio decisivo dado pela burguesia francesa ao golpe militar de Napoleão Bonaparte em 1799 fundamentava-se na necessidade histórica de:
- (A) restabelecer a dinastia da família real Bourbon ao poder supremo para pacificar a nação.
- (B) restaurar a antiga aliança absolutista com a nobreza latifundiária e com os privilégios do clero católico.
- (C) suspender o comércio externo com as colônias americanas para proteger a indústria nacional francesa.
- (D) estabilizar a ordem pública interna, salvaguardar as conquistas jurídicas da revolução e proteger a propriedade privada.
- (E) implementar o sistema socialista de distribuição coletiva de terras e fábricas para as massas populares urbanas.
Gabarito comentado da questão 04:
- Alternativa correta: (D)
- Justificativa: Após dez anos de convulsões sociais intensas, crises econômicas persistentes, revoltas jacobinas, ataques monarquistas e inflação crônica, a burguesia desejava ordem e segurança jurídica acima de tudo. Eles precisavam de um governante de autoridade inquestionável para estabilizar o país e garantir o livre mercado. Napoleão contava com grande prestígio nacional, carisma popular e o poder do exército para conter eventuais revoltas de esquerda ou tentativas de restauração absolutista de direita. Isso permitiu proteger as principais conquistas econômicas da burguesia e as novas estruturas de propriedade privada criadas pela Revolução.
- Por que as outras alternativas estão incorretas?
- (A) e (B) estão incorretas porque a burguesia não queria de forma alguma o retorno da antiga monarquia Bourbon ou a devolução de privilégios senhoriais feudais para a aristocracia e clero;
- (C) está incorreta porque as indústrias e o comércio burguês dependiam das trocas internacionais para crescer;
- (E) está incorreta porque a burguesia combatia ferozmente o controle popular jacobino ou ideias socialistas prévias como a Conjura dos Iguais.
Perguntas frequentes sobre a Revolução Francesa
Qual a diferença real entre girondinos e jacobinos na prática?
Os girondinos representavam a elite empresarial da burguesia e defendiam uma transição liberal moderada para o capitalismo, sem a interferência popular direta na política e com descentralização do poder. Já os jacobinos representavam a classe média profissional e, pressionados pelos sans-culottes urbanos, defendiam reformas sociais agressivas, o voto universal, centralização executiva absoluta e o uso de repressão extrema de estado para manter as conquistas da revolução em tempos de crise militar.
O que foi o período do “Grande Medo” ocorrido em 1789?
O Grande Medo (Grande Peur) ocorreu nos meses de julho e agosto de 1789 no interior da França. Diante de rumores de que a nobreza estava contratando mercenários armados para saquear e queimar as vilas camponesas para conter os protestos urbanos, os camponeses revoltaram-se de forma defensiva e preventiva. Eles armaram-se com foices e pedras, invadiram castelos aristocráticos, executaram proprietários rurais tiranos e queimaram os registros fiscais senhoriais que prendiam suas famílias às obrigações servis de terra há séculos.
Por que o movimento aboliu a escravidão nas colônias em 1794, mas o tema divide historiadores?
A abolição ocorreu sob pressão popular e das revoltas de escravizados na colônia açucareira de Saint-Domingue (atual Haiti). Foi uma decisão histórica extraordinária promovida pelos jacobinos na Convenção. Contudo, anos mais tarde, durante o período do Consulado em 1802, Napoleão Bonaparte reinstaurou temporariamente a escravidão nas colônias sob pressão das elites mercantilistas francesas. Isso provocou uma resistência violenta no Caribe, fazendo com que o Haiti travasse uma guerra de libertação sangrenta para assegurar sua independência definitiva em 1804.
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